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sexta-feira, 22 de abril de 2011

Bons de melodia

O country é quase sempre visto como um estilo musical popular, alegre, dançante, apesar das baladas melosas dedicadas a amores frustrados e às belas mulheres que pontuam a história desse gênero genuinamente norte-americano. Mas, como tudo no mundo evolui, excluindo a cabeça do bronco e preconceituoso deputado federal Jair Bolsonaro, aquela música recebeu injeções de modernidade que impuseram a ela novos tons e texturas. Bandas como Uncle Tupelo, Wilco, The Jayhawks e Drive By Truckers tiraram-na do circuito caipirão, agregando ao som um instrumental mais clássico, ritmo mais lento e poesias mais substanciais. Ajudaram a criar um subgênero que denominaram alternative country, ou alt country, como é mais conhecido. O grupo The Mountain Goats, ouso dizer numa análise bem pessoal, parece ter bebido claramente dessa fonte. E é deles um dos bons discos estrangeiros lançados no primeiro trimestre deste ano, o melodioso All Eternals Deck(2011).

Veja participação do Mountain Goats cantando no David Letterman:

http://youtu.be/CmBKKDxWJsk

Antes de ouvir o disco encare bem a capa do danado na foto do primeiro parágrafo desta resenha. As letras brancas sobre o fundo preto. Simplesmente. Nada de novo no design, é claro, mas quem conhece um pouco a banda imagina logo que a proposta impressa ali anteciparia mais um trabalho lento, introspectivo, estilo lo fi que marcou a carreira da banda, como em Get Lonely(2006) e The Life of te World to Come(2009). O que se ouve, contudo, é um John Darnielle, o cabeça do grupo, menos soturno, mais virado para o sol. Como se toda aquela melancolia anterior, feito cobra que muda de pele, tivesse se descarnado e se mostrado com novo brilho e cor. Essa pujança está inclusive naqueles momentos em que Darnielle, autor de todas as músicas, e seus amigos revivem a angústia curtida e explorada antes de forma admirável, a exemplo da envolvente “Outer Scorpion Squadron”, com seu piano leve contrapondo-se a violinos tensos, e de “Liza Forever Minelli”, homenagem em tom menor à, ironicamente, esfuziante e midiática atriz de tantos musicais hollywoodianos.

Naquelas duas músicas citadas antes, apesar do andamento mais lento, percebe-se um peso maior na instrumentação. Um amparo pra lá de providencial. Benza deus. Se antes, os norte-americanos do Mountain Goats eram conhecidos pelo minimalismo no trato dos instrumentos, agora se vê uma banda que parece ter se entregue de vez a texturas mais cabulosas, expansivas. Violinos, teclados, juntaram-se a pianos e violões para comporem sinfonias encorpadas que, longe de afastar o ouvinte das letras darks e ácidas de Darnielle, só contribuíram, a meu ver, para reforçá-las. Um exemplo clássico é a linda “Age of Kings”, uma de minhas preferidas, que começa acústica para tomar ares épicos mais adiante com a inclusão de violinos dramáticos. Grande arranjo de cordas para uma melodia arrepiante. Bela também é “Damn These Vampires”, puro alt country valorizado por uma poesia rascante, fragmentária e raivosa. “Deus amaldiçoe esses vampiros pelo que eles fizeram comigo”, canta o líder da banda.

Ouça a bela "Age of Kings":



A boa voz de Darnielle, grave e cheia de personalidade, é instrumento para outras canções de forte apelo musical. E leia-se aqui melodias inspiradas. Até naquelas composições com arranjos mais tradicionais, que lembram, mesmo que de longe, o estilo indie-country, como “The Autopsy Garland”, marcada por uma bateria pesada, quase tribal, e a mais alegrinha, apesar do título doentio, “Beautiful Gas Mask”, animada por um violão tão cheio de energia, é possível sentir a inteireza e modernidade de canções buriladas por músicos talentosos. E que mantêm a coerência, percebida em toda a carreira, ao insistir em letras carregadas de fantasmagorias e imagens cortantes, sem concessões aos mais fracos de coração e estômago. Temos, contudo, que nos desligar do universo tão próprio e denso de Darnielle e viajar em suas construções melódicas, que encantam a alma, como a lenta “Never Quite Free” e a mais hardcore “Estate Sale Sign”, que, pode ter certeza, caro amigo, não vai fazer feio em sua descolada festinha.

E por falar em peso, a nota curiosa sobre este All Eternals Deck é que quatro das músicas do disco, segundo noticiou a imprensa, foram produzidas por Erik Rutan, guitarrista de uma banda de metal chamada Morbid Angels. Dizem até que Darnielle é fã desse rock mais enfurecido. Curiosa porque em nenhum momento percebi uma mão mais pesada na produção levando o grupo a canções mais desarvoradas ou habitadas por gritos roucos e guitarras no talo. O décimo álbum de carreira dessa galera é, ao contrário disso, um trabalho cuja intensidade está centrada unicamente, e me perdoem se estou enganado, já que não sou fã do heavy metal e seus congêneres, naquilo que The Mountain Goats sempre soube fazer com maestria: peças para embalar ouvidos maturados pela qualidade musical. E, com esse último CD, pode-se dizer sem pestanejar: os caras não perderam a mão.

Cotação: 4

Daunloude-se:

www.mediafire.com/?c3430ul0zbskywl

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Muito prazer, Mr. Darnielle

Não conhecia os californianos do Mountain Goats. Mas, eles já são arroz de festa para aqueles que conhecem a fundo o indie rock mais classudo. O líder do grupo, John Darnielle, está na estrada há muito tempo, desde 1991. Tem vários discos solos onde pratica com uma voz meio anasalada sua verve poética e esquisitices. Em seu último trabalho, Heretic Pride(2008), acompanhado de uma turma competente, mostra que é compositor inspirado e consistente.

Heretic Pride é um discaço. Darnielle, ao lado do baixista Peter Hughes e do baterista Jon Wurster, lembra, às vezes, Lou Reed, quando este resolve contar histórias. Caso da espetacular “In the Craters of the Moon”, introduzida por um teclado e com levada bem dançante, com o vocalista rasgando o verbo e a voz. O grupo deixa aliás o lo-fi, uma de suas marcas, de lado para fazer um álbum animado. Vide as ótimas “Lovecraft in Brooklyn”, com sua guitarra matadora, e “Sept. 15th 1983”, com tempero reggae.

O disco baixa o tom sem perder a graça com canções mais suaves e melodias extremamentes hábeis, como “San Bernardino”, toda desenvolvida com um arranjo apenas de cordas e voz, e “Autoclave”, diáfana e amansada ainda mais por uma linda e econômica voz feminina. Dizem os entendidos em Mountain Goats que essa é uma das obras mais palatáveis da banda. Para mim, Heretic Pride, meu primeiro contato com essa moçada, é um grande lançamento que abre as portas da percepção para um artista inteligente e criativo. Só tenho a dizer: muito prazer, Mr. Darnielle.

Vá à luta:

http://www.mediafire.com/?bm4in012aoy

ou:

http://www.mediafire.com/download.php?4wwokzb3xjt

Cotação: 5