quinta-feira, 29 de março de 2012

Centelhas de criatividade


Criolo: mistura de rap, MPB e trip hop gerou grande álbum
Me sinto como o coelho atarantado da psicodélica história de Lewis Caroll. Atrasado, atrasado, atrasado. Em mais uma resenha tardia desse meu maltratado blog, eis que finalmente solto a lista já mofada dos dez melhores discos nacionais de 2011. Ano de reafirmação de uma nova MPB, vemos surgir algumas promessas, nomes já conhecidos por um time antenado de ouvintes, gente com os pés já bem firmes na estrada musical, como Cícero, Pélico, Gui Amabis e Criolo, fazendo discos inteligentes. Temos também a confirmação de talentos anunciados como Tiê e Mariana Aydar. E o retorno da musa da MPB que ajudou a desaguar um tanto de novas cantoras, Marisa Monte, com um trabalho sincero e ultra-romântico. Ano passado esteve longe de ser um dos mais reveladores e fantásticos para a indústria nacional, mas deixou antevista uma centelha de criatividade, vinda das hordas de um submundo que se mexe freneticamente e que as TVs e rádios populares insistem em não ver, que tende a se cristalizar nesta década. Pelo bem de nossos ouvidos. Afinal, como disse o filosofo baiano Gilberto Gil sobre a atual produção musical brasileira, “o problema do lixo não é mais a qualidade, o mau cheiro ou a podridão. O problema do lixo é a quantidade”. Chega de lixo revestido de luans santanas. Viva a boa música. Segue minha lista de como desopilar em tempo de vacas magras:

A Coruja e o Coração (Tiê)  - O uso farto dos instrumentos amplifica a poética de Tiê. Tudo continua intimista e confessional. Mas com outro deslumbramento. Os ricos arranjos adicionam ao disco um elemento invisível no trabalho anterior, o pop. A versão flamenca e alienígena do forró “Você não Vale Nada” é prova disso. Para firmar o nome de Tiê em nossa constelação dos grandes nomes.

Sou Suspeita, Estou Sujeita, Não Sou Santa (Annelis Assumpção) – O sobrenome prenuncia a tempestade criativa. Filha do genial Itamar Assumpção, essa bela negra faz de seu disco de estréia uma ode ao refinamento e boas idéias. Tá no DNA. Um trabalho bem resolvido que traduz a alma forte e talentosa de Anelis. Um disco com substância, desses que nossas mãos estão sempre procurando para colocar no toca-cd. 

Nó na Orelha (Criolo) – Esse paulistano, velho conhecido nas Rinhas de MCs da capital de São Paulo, entrega ao público esse que talvez seja um dos trabalhos mais bonitos e surpreendentes do ano.  Uma estréia solo de peso, repleto de poesia e mensagens políticas, sem perder a ternura jamais. Ouça “Não existe amor em SP” e “Bogotá” e tente não se contagiar. Discaço devidamente reconhecido, caso raro, pelo público e crítica.
Que isso Fique entre Nós (Pélico) - O quanto de nitroglicerina pode conter uma paixão? Pélico experimentou contar casos de amor, romances, com um desprendimento à flor da pele. O resultado é Que Isso Fique entre Nós(2011), uma espécie de delicado diário de amores perdidos. Segundo desse paulistano, o CD traz pérolas como “Recado” e “Levarei”, hinos sensíveis e bem tramados num trabalho feito para tatuar corações.

Canções de Apartamento (Cícero) - Namoro consumado com a MPB de um artista que já havia mostrado seu potencial na extinta banda Alice. Relação apaixonada que traz traços e referência de medalhões como Tom Jobim e Caetano Veloso. Mais do que isso, porém, uma estréia marcada por lindas e melodiosas canções. A maioria delas marcadas por uma poética low-profile, orgânica, prenhe de intimismo. Ouça com atenção.

Cavaleiro Selvagem, aqui te sigo (Mariana Aydar) - Depois de dois discos muito elogiados, essa cantora e compositora mostra seu amadurecimento numa obra que reúne o que ela produziu de melhor nos trabalhos anteriores. Personalidade, arranjos equilibrados, releituras diferenciadas de velhos clássicos, Aydar confirma que veio para ficar. A interpretação candente de “Vai Vadiar” e de “Passionais” são retratos perfeitos desse amadurecimento.

O Que você quer saber de Verdade (Marisa Monte) – A musa retorna reforçando o lado romântico que visitou com freqüência nos últimos discos. Há quem torça o nariz para Marisa Monte, mas com esse último trabalho ela desafia a crítica ranzinza gravando despudoradamente canções apaixonadas e bem produzidas a exemplo da pegajosa “Ainda bem” e da deliciosa “Aquela Velha Canção”. Para quem não tem medo de se apaixonar.

Baptista Virou Máquina (Burro Morto) – O disco instrumental do ano. O grupo paraibano cria texturas cinematográficas e densas nesse CD surpreendente, trilha sonora de filme. Os caras buscam no jazz, no funk, no afrobeat e no rock, o verniz para composições cheias de vida e instigantes. Ousam com um conteúdo que não dispensa improvisações e até atonalismo. Trilha robusta, com timbres e matizes ricos que marcaram 2011.

Memórias Luso/africanas (Gui Amabis) – Produtor requisito e músico de primeira linha, Gui Amabis mergulha no passado para fazer um disco de fortes sabores. Tambor e eletrônica se unem numa obra capilar. A participação de Céu, esposa do artista, em “Doce Espera”, e do seminal grupo Nação Zumbi só melhoram esse encantador trabalho. Para destrinchar aos poucos, como merece esse CD tão cheio de tessituras e belezas.

Longe de Onde (Karina Buhr) – A pernambucaninha é outra que confirma o talento exercitado no disco de estréia, o ótimo Eu Menti pra Você. Ela demonstra em canções rápidas a mesma inquietude e o espírito criativo que chamaram a atenção da crítica. Os petardos “Casa Palavra” e “A Pessoa Morre”, que abrem o disco, são reveladores de uma artista antenada com seu tempo. Desafiadora e provocativa, Buhr cativa mais uma vez sem concessões.

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