quinta-feira, 19 de junho de 2014

De volta ao futuro

Capa com pintura barroca para disco revivalista
Titãs voltando às raízes, ao rock acelerado e provocador que marcou toda uma geração. De repente, em meia a uma chuva interminável que acinzenta o céu e os muros das casas de Boa Vista, ouvindo Nheengatu no toca-fita bêbado de meu carro, volto no tempo. Flutuo na mesma energia juvenil que injetava um sabor todo especial a músicas como “Polícia”, “Ah, Ah, Uh, Uh” e “Bichos Escrotos”, clássicos do Cabeça Dinossauro, disco-bomba de um bando que hoje, mantido por coroas enrugados, brinca de fazer música. Nheengatu é o último do Titãs, mas bem que poderia ser o terceiro da banda, a continuação de uma linha melódica baseada em notas simples e rápidas, em letras diretas e com engajamento de black blocs, só para usar uma expressão mais moderninha. Mas, de volta ao futuro, bem vindos aos anos 80 com o novo da melhor banda de todos os tempos da última semana.

Veja o clipe oficial de "Fardado": 

Nheengatu apresenta-se impoluto como uma espécie de rara vingança de um período que insiste em não sair da cabeça dos saudosos. Se a década de 80, que muitos achincalham como uma das mais pobres musicalmente - na comparação com os anos 60 e 70 (imagine na balança com os 90 e os 00) -, continua fazendo sucesso na segunda década do século XXI, porque não tirar uma casquinha dela? O quinteto Paulo Miklos(voz e guitarra), Branco Mello(voz e baixo), Sérgio Britto(voz, teclado e baixo) e Tony Belloto(guitarra), mais o músico convidado Mário Fabre(bateria), por sinal uma grande aquisição, parece querer repetir a magia do já citado Cabeça Dinossauro(1986) e de Jesus não tem Dentes no País dos Banguelas(1987), outro trabalho marcante dos caras.


Belotto, Miklos, Britto e Mello: energia juvenil
Com ecos do punk, a eletricidade de um rock and roll despojado, viril pra caralho, os Titãs desfilam nesse álbum de inéditas, depois do mediano Sacos Plásticos(2009), um repertório de tirar o fôlego como se tocado por um grupo de adolescentes, mas devidamente formatado pela experiência. Ou seja, um álbum de garagem tocado cirurgicamente por marmanjos que sabem muito bem o que querem mostrar. O que sobrevive dessa experiência “laboratorial”? Uma música lúdica e contagiante. Os bons e velhos Titãs acertaram nesse revival, emprestando às composições um tempero oitentista tão inspirado que aos ouvidos dos mais novos pode até soar como algo inédito.


A música “Fardado”, que abre o álbum, remete melodicamente a “Polícia”, com recados parecidos nas letras. Se numa há a rejeição a truculência policial, na outra há um chamado à consciência: “Você também é explorado, Fardado. Ponha-se no meu lugar, ponha-se no seu lugar”. A molecada deve adorar. A incontida raiva de uma geração que saía para protestar com atestado de consciência sobe ao palco em “República dos Bananas”, título que se apropria dessa expressão usada copiosamente nos anos 80. Esse rock ligeiro, com batidinha de bateria e guitarrinha repetitiva que é a cara do Titãs daquele período, traz um refrão que serve tanto pro passado quanto pro presente: “Calúnias sociais, seus tipos bacanas/Bundas e caras da República das Bananas”.


Coroas no palco para tocar sua nova babel
O engajamento, os palavrões, as melodias pra bater cabeça, as guitarras e bateria raivosas, a urgência são lugares comuns num set list surpreendente fazem de Nheengatu um álbum quase datado. Disse quase. As referências culturais, a inteligência das letras e arranjos com toques contemporâneos tornam esse disco uma intersecção espertíssima entre tempos passados e os dias de hoje. Citações a Gonçalves Dias e a terra onde os sabiás cantam nas palmeiras, como em “Chegada ao Brasil(Terra à vista)”, à bossa nova e à Cartola (sim, eles gostam também) na ótima “Baião de Dois”, “é só isso esse baião/E não tem mais nada não” misturado a outros timbres de guitarra e ritmos “estranhos” a discografia do grupo contribuem para fazer de Nheengatu um belo e perene disco, uma jóia raia na carreira do Titãs. E tem também algumas que fogem um pouco da regra revivalista do trabalho, como as bacanas “Fala, Renata” e “Flores pra ela”. Ouvindo esse álbum dirigindo o velho gol nas avenidas de Boa Vista lambidas pela chuvarada senti que o passado revisitado soa moderno pra cacete. E assim caminha a humanidade. Avoé, Titãs.

Cotação: 5 

Tente ouvir por aqui:

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sexta-feira, 26 de julho de 2013

Eu acredito em Nick Cave

Cave está de volta com toda a sua melancolia e beleza
Para Wagner Ataídes

Um alemão maluco numa tarde cinzenta numa Brasília sem engarrafamentos me apresentou Nick Cave. Eram dias derradeiros dos anos oitenta e eu, cheio da irrefreável sede do conhecimento, atado e atento ao que o mundo me oferecia de mãos beijadas. O louco alemão falou de Cave com sua também voz cavernosa, naquele seu dialeto que misturava sua língua pátria com a minha língua mátria, entrecruzando expressões meio incompreensíveis entre os dentes encardidos de nicotina. Consegui, enfim, entender um “você vai gostar” bem pronunciado e decidido. Para quem já havia me apresentado The Smiths, tinha que dar crédito para o cara. Comprei a bolacha do Kicking Against the Pricks(1986) e botei pra girar na vitrolinha, depois de encarar intrigado um sujeito na capa do disco de black tie e um topete gigantesco envolto num ambiente esfumaçado de cabaré. Era um álbum de covers com versões nebulosas, às vezes experimentais, às vezes farsescas de músicas de gente boa. John Lee Hooker, Johnny Cash, Tom Springfield, Lou Reed dançando nos sulcos do vinil em catárticas e raivosas interpretações. Pensei, o louco alemão tinha razão, aquele australiano era realmente bom pra caralho.

Veja o vídeo de “Jubilee Street”:


E esse Cave do alto de sua eterna magreza foi me surpreendendo a cada disco rodado, confirmando de vez minha admiração num show que fez para poucos agraciados numa virada de década debaixo de uma lona de circo em Brasília montada para shows populares. Tender Prey(1988), Henry´s Dream(1990), Murder Balads(1996), só para citar alguns exemplos, traziam um músico inteiro, bem intencionado, de voz marcante e afinada, acompanhado de uma super banda, os fabulosos The Bad Seeds. Que cantor e compositor não gostaria de estar acompanhado daqueles caras talentosos? Juntos fizeram álbuns antológicos, nos quais Cave exorcizava fantasmas, cantava sobre deserdados, sentimentos periféricos, assassinos, a crueza da vida e, claro, o amor sem muitas concessões. De uma tal forma que pesava no coração e rodopiava latente na cabeça. Parte desse universo, do sentimento de urgência e principalmente da melancolia que trespassava a música como flechas sorrateiras está presente de forma estupenda em Push the Sky Away(2013), o último e mais um acerto de Cave e as más sementes nesse que é o 15 álbum de estúdio deles.

Cave ao lado de uma das melhores bandas de apoio da terra
Não que fosse inesperado, mas depois de uma série de obras em que se esbaldaram, feito crianças num grande parque de diversôes, num rock ligeiro e insidioso, caso dos discos Dig, Lazarus Dig!!!(2008) e os dois que assinaram como Grinderman, um projeto paralelo, muitos acharam que Cave e The Bad Seeds iriam engrenar uma quarta marcha. E continuar acelerando as batidas da batera e do coração. Que nada. O cara e a banda trouxeram de volta aquele som soturno, em marcha lenta, marcial. Minimalista, o músico canta noturnos num tom menor que, apesar disso, não tira a grandiosidade e a estranha beleza de suas composições. A noite se faz cercada de um sentimento taludo, de tão triste e melancólico é quase palpável, como uma carne a se cortar. E a voz, mais segura do que nunca, ressaltada pela delicadeza instrumental, repetitiva e hipnótica torna os ouvidos reféns das histórias e do universo denso e introspectivo, cheio de sereias, devaneios e alma desnuda do australiano.

Cave: trinta anos de carreira e vários álbuns antológicos
Em descompasso com a velocidade do mundo que briga feroz com o relógio, as músicas de Push the Sky Way devem ser sentidas como, nessa aparentemente absurda e venal comparação, aplicações de agulhas em uma sessão de acupuntura. As leves alfinetadas na pele transformam-se em sensação de prazer e acolhimento, como chaves para a transcendência proposta pelo álbum. Logo de cara, “We No Who U R”, com seu instrumental mântrico e letra obscura e repleta de metáforas, amansa os ouvidos e nos entrega um Nick Cave introspectivo, marginal. A linda “Wild Lovely Eyes” segue esse caminho de serenidade a falar de ondas cristalinas de amor com um toque quase, não se espantem, de música eletrônica. É o artista, como diz a própria letra da música expandindo sua música e sentimentos sem medo de ser transparente ou de parecer louco ou um desgarrado poeta destilando crenças e delírios. “Eu acredito em Deus/Eu acredito em sereias também/Eu acredito em 72 virgens acorrentadas(por que não? por que não?)”, sussurra em “Mermaids”, um dos muitos pontos altos do disco ao lado da fantástica “Higgs Boson Blues”, um torto e enigmático blues interpretado de peito aberto pelo bardo australiano, e da pungente “Push the Sky Away”, com seu teclado lento que lembra igrejas góticas. No final da bela composição, o músico questiona, em minha tradução livre: “Algumas pessoas dizem que é apenas rock’n roll/Mas, isso deixa você em contato direto com sua alma”.

Push The Sky Away é mais do que rock. Transcende esse rótulo e reforça a coerência, explícita em 30 anos de carreira, de Nick Cave e sua incrível banda em dialogar diretamente, abertamente com aquilo que mexe profundamente com eles. São dores, cores, tesões traduzidos em uma música redentora. É talvez redenção para o grupo que a toca. É presente para quem a ouve embevecido e agradecido. Um dia um maluco alemão me apresentou Nick Cave. Há 25 anos. Num desses dias cinzentos de 2013 da mesma Brasília, um amigo daquela época me alertou para ouvir o novo álbum do cara e sua banda de lá. “Acho que você vai gostar”, disse sem sotaque e com a firmeza de quem confia no que diz. E eu sempre dei crédito – por tudo que escutamos e amamos juntos - para a sensibilidade dele. Aquele sentimento de força e beleza atravessou décadas e hoje se renova como se o tempo tivesse parado. Acho que é assim com a música boa, como uma fonte de juventude. Vai ser sempre assim.

Cotação: 4

Tente o download por aqui:

http://www.mediafire.com/download/1vm5axm1one8mvl/Nick_Away.rar

terça-feira, 14 de maio de 2013

Depois daquele acidente


O baque surdo, feroz misturado a uma sensação de vertigem me tirou do cochilo instantâneo. O vidro do carro a minha frente tremeu e por alguns segundos me vi chacoalhado, como se estivesse dentro uma coqueteleira gigante agitada por mãos firmes, até que a poeira baixou e o que era som de fúria e estardalhaço entranhou-se num completo silêncio, quase etéreo, estéril. E logo depois, no átimo do atordoamento, uma visão dolorida fisgou ainda mais o coração intranquilo. Aquele braço, a carne inerte, como um quadro parado, pendurada na janela do automóvel, como se quisesse sublinhar a dimensão do acidente. O braço do meu amigo pendido pro lado de dentro do veículo como um estranho adorno, me acordou de vez.  A voz chamando o companheiro saiu agoniada, assustada, mas não baixa o suficiente para que a resposta tranquilizadora viesse urgente. Estava tudo bem com nós dois, dois homens cobertos de poeira, banhados de medo e alivio, no transe daquilo que aos poucos começamos a entender.

Antes do acidente havia um céu de anil, entrecortado por poucas nuvens, e o sol manso de fevereiro. Sol frio de início de dia na contradança do som baixo que tocava no rádio do carro como uma besta e traiçoeira cantiga de ninar. O cansaço acumulado dos dias anteriores, reféns do imperioso desgaste de que somos vítimas quando assumimos contrato com mestre de obras e pedreiros naquelas reformas que parecem não ter fim nem piedade. A débil ressaca da desmilinguida noite anterior, na qual cumpri um roteiro rápido de algumas cervejas bebidas em bares compromissados com a rotina interiorana da população de se levantar pro dia seguinte com o canto dos galos. As poucas horas descuidadas de sono que não ajudaram a restaurar a dívida que eu tinha com meu corpo e mente. Esse histórico comprometedor e aquele sol frio e aquela música baixa e aquele sono que me rondava e ao meu amigo feito um sorrateiro soldado pronto e acordado pra vencer a batalha... e aquela hora em que perdi o contato com a realidade naquela estrada de finos pedregulhos que cortava o extenso canavial de paisagem modorrenta e que parecia sem fim.

De surpresa o sono trouxe o avassalador. O carro que deslizou sem rumo, na coreografia clássica da cambalhota, perdendo o atrito com o chão, dançando no meio das partículas de terra em suspensão e o baque surdo, repentino. Imagino que foi isso que aconteceu enquanto nos entregávamos, rendidos, eu e meu amigo, ao fatal cochilo. Quando nos demos por inteiro, atônitos e cobertos de poeira, fora do carro que parecia esses objetos esquecidos, aos frangalhos, como um sobrevivente inútil de um bombardeio, nos olhamos na ânsia de escanear a saúde de cada um, na procura do consenso de que estávamos realmente bem. Estranho sentimento esse que nos assalta imediatamente após uma acidente perturbador, essa nossa vontade irremediável de estarmos vivos, sãos e salvos. Nessa hora o sol que bate na gente, nos nossos músculos ainda retesados, essa claridade que divisa ainda mais claramente a poeira que tinge os cabelos desalinhados, reflui dentro da gente como um inefável e poderoso sopro de alegria, ressuscitador. O alento de estar vivo nessa hora é como um bálsamo que injeta energia e que nos faz reativo para tudo mais que vem a seguir. Deu a força que eu precisava para pontuar aquela história e sobreviver, mais uma vez, dessa vez às agruras de quem, mesmo aturdido, precisa acionar o seguro e seus mecanismos cruéis de burocracia.

Depois de se sentir vivo, a gente consegue ver com mais clareza o tamanho do tombo. O raciocínio volta com mais firmeza e você se pega a analisar, como se procurasse significados para aquilo tudo que aconteceu. Como se sustos daqueles tipos tivessem que carregar necessariamente lições de moral, espiritualizada a alma por ainda fazer parte deste insano mundo. E quando a gente sai ileso dessas quedas, construímos couraças, nos fortalecemos, amadurecemos um pouco mais e se não choramos é porque não há motivos para tanto. Aquele monte de metais retorcidos, aquela equação de entranhas ferruginosas formando uma escultura esquisita torna-se de repente um coadjuvante desprezível de algo maior, desse ardor inenarrável que é respirar fundo e sentir o gosto do sal da terra, o perfume do verde da cana, é pensar que existem muitos anos pela frente para terminar de construir aquilo que queremos ser e doar. Sabia que tinha um compromisso inadiável com a vida e meu amigo ainda mais, por ainda ter uma longa estrada por esquadrinhar e percorrer. Os dois, banhados de poeira e estupor, comemoramos a vida.

E depois daquele breve instante de terror, a razão foi moldando o porvir, encarcerando o tremor. Os carros que passavam e paravam e as pessoas que saíam do carro e paravam e se espantavam e faziam varredura sobre nossos corpos para contar as cicatrizes, para soprar as feridas. Os conhecidos da vila onde moramos que nos entupiam de perguntas, que queriam se solidarizar com nossa dor, que ofereciam a mão, o ombro, o carro que funcionava, o tempo que seguia já em seu curso normal cobrando a evolução natural dos segundos, das coisas, das coisas a cada segundo. E o que se seguiu foi uma briga lenta, cansativa, pressionada para que o acidente fosse registrado nos anais da seguradora, nas cadernetas da polícia de trânsito, no diário das coisas perdidas que um dia desapareceria, como tem que ser, no porão das coisas esquecidas. Porque o que vale nesses instantes é o que há de acontecer. E se um dia resolvi contar isso tudo é porque meu coração, já passado o trauma e redivivo, pedia para que o passado fosse expurgado e que um véu fosse jogado sobre o carro retorcido. Hoje o carro virou ferro velho como essa memória tão recente parece agora quinquilharia. Há tanto o que se fazer, há tantos a quem se amar, há tanto mar a se mergulhar e essa vida, que parece tão infinda, tão ávida para fazer a gente mais inteiro, que depois daquilo tudo, hoje posso contar as horas com a esperteza da vida ganha. Tá contado, meu coração pediu, e agora é seguir em frente.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Dos temperos do Pará

Gabi Amarantos, vencendo preconceitos e conquistando o país
Se no circuito estrangeiro, os álbuns lançados não me calaram a alma, em terras brasilis a tônica foi a mesma. Posso estar sendo muito injusto, afinal essa falta de tesão pelo conjunto da obra que ouvi pode ter estado dentro de mim e não ser fruto maduro da realidade.  E, volto a dizer, fui safado e leviano com esse meu maltratado blog. Ouvi menos discos do que gostaria, vivi menos música do que gostaria, trabalhei mais do que gostaria. A impressão imprecisa, pois, que fica desse ano musical brasileiro tão cheios de tchus e tchas e tchetchererês, é que não surgiu algo tão marcante quanto foi, por exemplo, o rapper Criolo no ano passado.  Mas, em compensação, conhecemos a cara, cores e sons do Pará com representantes cheios de suingue como a incensada Gabi Amarantos(foto) e o interessante Felipe Cordeiro. Tivemos ainda a ratificação de algumas boas promessas, como os paulistas do Letuce , e a inventividade assombrosa do baiano Lucas Santanna. Tulipa Ruiz segue firme com seu inabalável talento num segundo trabalho cheio de graça e delícias. São artistas, enfim, que reforçam esse nosso dom de fazer música instigante, com identidade própria e longe da bestialidade presente nos breganejos e axezismos que chacoalham a massa. Com vocês, aqueles brasileiros que, em minha vã filosofia, fizeram um 2012 melhor antes da chegada do fim do mundo, marcado para amanhã,  21 de dezembro. Sendo assim, que em 2013 esse mesmo mundo se afunde em boa música para os sobreviventes.


Treme, Gabi Amarantos - Tem gente que torce o nariz, que não se imagina ouvindo a rechonchuda e deliciosa cantora paraense. Destarte os preconceitos bobos, Gabi Amarantos soube se cercar de bons produtores e eleger um bom repertório para fazer de Treme um dos bons lançamentos do ano. Pulsante e colorido, o CD escancarou as porteiras para que muitos brasileiros conhecessem e se encantassem com os temperos do Pará.

Vá de Gabi:http://www.4shared.com/rar/kYm-mFrE/Gaby_Amarantos_-_Treme__2012_.html


Kitschpopcult, Felipe Cordeiro - Outro representante do Pará que mostrou um repertório competente. Mais roqueiro, Cordeiro mergulha na guitarrada e no carimbó dando a esses ritmos uma vestimenta contemporânea que torna sua música eletrizante. O filho do maestro e produtor  Manoel Cordeiro demonstra em sua estréia fonográfica que tem bala na agulha e brilho próprio para fazer história. Esse rapaz pode ir longe.

Cordeiro ao ponto: http://felipecordeiro.net/


Manja Perene, Letuce - Para degustar com paciência e vagar, o segundo álbum do Letuce confirma as boas idéias presentes no trabalho de estréia, o bom Plano de Fuga para Cima dos Outros e de Mim (2009). Sensualidade e letras impactantes, lúdicas envolvem o ouvinte disposto a se entregar a melodias e poesias repletas de achados, numa obra homogênea, libertária, que cresce a cada audição.

Baixe gratuitamente aqui: http://www.letuce.com.br/


Sintoniza Lá, B Negão e os Seletores de Frequência - Irreverente, panfletário, suingado, B Negão fez , depois de nove anos, o álbum que os fãs esperavam. Entre o cheiro de ganja, as críticas a sociedade consumista, o carioca, ex-parceiro de Marcelo D2, destila uma sonoridade contagiante, black até o caroço. Um sucessor mais do que digno do grande e já clássico Enxugando Gelo. Salve B Negão.

Baixe até o caroço: https://rapidshare.com/#!download|475p8|3916724591|BNSF-Sintoniza-La-2012.zip|88043|0|0


Tudo Tanto, Tulipa Ruiz - Tulipa é cantora com todas as letras, com "C" maiúsculo. No seu segundo álbum reafirma o refino do canto, a destreza com as notas musicais e, sobretudo, sua marcante personalidade. Senhora de si, a artista de timbre particular e delicioso ampara-se em canções excelentes para transformar Tudo Tanto em um disco plural e precioso. "Cada Voz" e "Víbora"  são exemplos dessa arte maior.

Tudo Tanto aqui: http://abaixafunda.blogspot.com.br/2012/07/tulipa-ruiz-tudo-tanto-2012.html


Quilombo do Futuro, Maga Bo - O DJ norte-americano é legítimo representante daquele turma refém da riqueza sonora produzida no Brasil. Encantado com nossa pluralidade de ritmos, o cara reuniu músicos de peso para fazer suas envenenadas versões de côco, funk carioca, candomblé e outras batidas dançantes. Batucada misturada equilibradamente a beats eletrônicos que redundam num álbum tão misturado quanto intenso.


Visite o Quilombo: http://www.mirrorcreator.com/files/1IURDYHK/


Moon 1111, Otto - Lançado já no finzinho do ano, o disco de Otto não tem a majestade de Certa Manhã acordei de Sonhos Intranquilos (2009),  o trabalho anterior que trouxe o pernambucano mais nu do que nunca, mas ainda sim é obra de mestre. Provocativo e sacana, como na música "DP", reverenciador, com justiça, como em "A Noite mais linda do Mundo", de Odair José, inquieto, como em "Exu Parade", o bom e velho Otto mostra com sobras as suas armas.


Ouça Otto: https://anonfiles.com/file/efde51881f49055fb4ea230fa9793073


O Deus que Devasta mas também Cura, Lucas Santanna - Existe nesse artista baiano uma incontestável necessidade de fazer uma música que acenda nossos neurônios. Nada em O Deus que Devasta mas Também Cura é gratuito. Mas, o que Santanna mostra de racional em suas composições, reforçado pela ótima produção e arranjos, nem de longe arrefece o calor e inventividade desse grande disco que só abrilhanta o currículo de um ótimo compositor.


Mergulhe sem medo: http://www.mediafire.com/download_repair.php?dkey=uo5tb16a9pp&qkey=0446j2m9031hjpb


Claridão, Silva - A expectativa era grande em torno do primeiro CD oficial de Lúcio da Silva Souza, o Silva, depois de um elogiadíssimo EP de cinco faixas lançado ano passado. Com Claridão, o capixaba, não avançou muito além daquilo que deixou a crítica irrequieta, seu som que mistura eletrônica e MPB, com algumas doses de experimentalismo. Nem precisava. O álbum tem autenticidade suficiente para colocar o artista nos trilhos do futuro.


Experimente o Silva: https://hotfile.com/dl/176180747/2b1c93d/Silva_-_Clarido_2012.zip.html


Arrocha, Curumim - Batidas percussivas, grooves e tectronices são a cama perfeita para um dos discos mais potentes do ano. Moderno e antenado, o baterista Curumim convocou parceiros de peso como Gui Amabis, Marcelo Jeneci, Céu, Otto, MC Russo Passapusso e a banda Guizado para organizar um piseiro de primeira. O álbum flui musicalmente como uma bela amizade, forte e enraizado. Uma aula de brasilidade.

Arroche: http://www.mediafire.com/?tgd28ff59sbnbo8

quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

O ano em que os velhinhos mandaram bem

Eis mais um fim de ano, e, antes que o mundo acabe ou acabemos com ele, escrevo minha tradicional lista dos melhores álbuns que ouvi neste estranho 2012. Começando com a lista dos gringos. Musicalmente, nada me provocou espasmos de tesão e olhe que sempre fico esperançoso com essa possibilidade, já que acredito na criatividade e inventividade dos homens. Mas, que minha estúpida memória aponte-me , nenhuma novidade  fez vibrar os sentidos. Talvez, mea culpa, por ter ouvidos menos discos que gostaria nesse ano de eleições e por ter tomado decisões radicas em minha vida. É que, às vezes, somos escravos das contingências e nos deixamos levar, burramente passivos, por elas. Mas, na minha lista pessoal de audição ficou o rastro do retorno triunfal de algumas lendas da música, como os castigados pelo tempo, mas fustigados pela arte, Leonard Cohen  e Bobby Womack(foto). Os velhinhos mandaram bem. Na lista dos melhores das revistas especializadas em música mais renomadas, estão ainda os álbuns mais recentes de outros dinossauros como o xerife Bruce Springsteen e os bardos Bob Dylan e Neil Young , reforçando o rol da "volta dos que não foram". Infelizmente, esses aí ainda não ouvi. Segue assim minha claudicante e falha lista dos melhores CDs internacionais do ano. Promete aos meus ralos leitores melhores em 2013. Que ele seja cheio de música para todos.


Old Ideas, Leonard Cohen - As velhas idéias, quando boas, sempre causam impacto e reconforto. Aos 77 anos, o autor de "Suzanne" e "Hallelujah", entre tantos outros clássicos do cancioneiro rocker, brindou os fãs com um álbum espetacular, denso e intenso, daqueles de ouvir de joelhos. Um verdadeiro acontecimento.

Fique mais perto de Cohen: http://www.leonardcohen.com/



The Bravest Man in the Universe, Bobby Womack - Outro sobrevivente da música mostrando que preservou o talento apesar do peso de seus 68 anos e do consumo desvairado de muitas drogas. O disco é de uma sinceridade desconcertante. A voz rouca do cantor, as canções confessionais, os arranjos inteligências, tudo isso faz do álbum uma tardia obra-prima.


Escute sem mais tardar: http://www23.zippyshare.com/v/80817120/file.html


Moms, Menomena - A banda de Portland,  EUA, exercita sua sonoridade esperta e próxima do experimental dessa vez rondando a simplicidade. Esses insatisfeitos de carteirinha aproximam-se do pop, mas nem tanto, mantendo aquela estranheza e beleza que ajudou a criar fãs em todo o mundo. Afiada, Menomena ofereceu-nos um prato raro pra degustação.
Baixe o danado:
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Heaven, The Walkmen - Essa é uma das bandas indies mais queridas do planeta. Provavelmente por sua constância e qualidade musical. O trabalho de 2012, o sétimo da carreira, é um refino da arte melódica e hipnótica dessa consistente galera. "We Can't Be Beat" e "Southern Heart" são apenas dois exemplos de um jeito manso  de conquistar o mundo.

Conheça Heaven:http://rapidgator.net/file/31719326/www.NewAlbumReleases.net_The_Walkmen_-_Heaven_%282012%29_FLAC.rar.html



Coexist, The XX - O som do duo deixou de ser novidade. Meio que se repete a qualidade do primeiro e excelente álbum. Sem problemas. Sensualidade e delicadeza pouca é bobagem para essa dupla que toca nossos corações e sexo com muita habilidade. Massagem profissional feita nos ouvidos, o segundo trabalho do The XX é elegância pura.
Papo reto com a elegância:http://rapidgator.net/file/35856354/www.MuzikZip.com_The_xx_-_Coexist_%282012%29.zip.html



Adventures in your Own Backyard, Patrick Watson - Esse foi o disco que mais me acalmou em horas de estresses enervantes. Delicado e sutil, o álbum desacelera a alma e nos deixa enlevados, a ver estrelas. O canadense Watson continua a linhagem, num tom abaixo mas poético do mesmo jeito, de gente como Leonard Cohen e Joni Mitchell. De cabeceira.
 Tá esperando o que?:http://rapidgator.net/file/15018328/www.NewAlbumReleases.net_Patrick_Watson_-_Adventures_In_Your_Own_Backyard_%282012%29_FLAC.rar.html


Nootropics, Lower Dens - Logo de cara, "Alfhabet Song", a primeira canção do álbum, deixa a gente ensimesmado. Com ecos de Radiohead, a música entrega uma banda viajandona e cheia de bons achados. Com muitos detalhes e alguma dose de experimentalismo, o segundo trabalho do Lower Dens foi para mim, uma das boas surpresas do ano. Vale ouvir.
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The Shallows, iLiKETRAiNS - A banda inglesa, já recorrente nas rodas indies, retornou com um disco que junta batidas eletrônicas e cordas de uma maneira tão ensolarada que é difícil não se prender instantaneamente à obra. É uma retomada em nova fase, vigorosa e competente, desse ótimo grupo. Não é música fácil, mas recompensa o ouvinte que tente explorá-la.

Vá lá:http://depositfiles.com/files/ql3sfrpew?redirect


Celebration Rock, Japandroids - O álbum é o que o seu título sugere, uma celebração do rock. Ligeiro, urgente, é um disco roqueiro por excelência, desses que todos anos surgem para incendiar pistas. Poucas notas , poucos minutos de duração e muita energia. A guitarra e as vozes nervosas de Brian King e David Prowse, a dupla barulhenta de Vancouver, garantem um disco super alto astral.
Rocke-se:http://www66.zippyshare.com/v/92607354/file.html


The Idler Wheel is Wiser than the Driver of the Screw and Whipping Cords will Serve you more than Ropes will Ever do, Fiona Apple - Desde Tidal(1996), tenho uma queda por Fiona Apple. Como uma Suzanne Vega enlouquecida, a cantora sempre destilou sua agridoce poesia em melodias pungentes. Depois de algumas derrapadas, ela voltou lúcida e incandescente neste álbum de título quilométrico, como quilométrica é a beleza do mesmo.

Fiona sem Schrek: http://depositfiles.com/files/ftutzq9hz

sábado, 6 de outubro de 2012

Bazar sob nova direção


Existe uma leveza no povo brasileiro que é uma marca pro bem e pro mal. Quando essa condição é usada com malícia, para engabelar os bons sentimentos, damos de cara com aquela reprovável esperteza que mancha deploravelmente o currículo de nosso caráter. Aí vira palhaçada. Quando utilizada para gerar inventividade, e somos mestres nisso, temos uma nação que produz amiúde exemplos e o riso fácil. Temos, enfim, um pacto sério com o sorriso. E isso é muito bacana. Nosso rock, aquele com inequívoco traço nacional, muitas vezes apropria-se dessa leveza e invenção. Desde os anos 80, e de forma mais evidente nessa década, com as crônicas cantadas pela trupe quase circense do Blitz, as fanfarronices do Magazine e Ultraje a Rigor, e mesmo antes com o "top top" sacana da reverenciada banda Mutantes, o humor é moeda corrente. Essa espirituosidade, mesmo sem o riso solto, a objetividade e clareza dos grupos citados, somada a elementos psicodélicos e uma boa dose de inteligência, ajudam a fazer de Todo Futuro é Fabuloso (2012), o segundo álbum dos paulistanos do Bazar Pamplona, um trabalho digno de audição. Após um exercícios de três anos de lapidação, as boas tiradas, não confunda com piadas, chegam lúcidas e prontas para alegrar o nosso dia.

Clip de "Todo Futuro é Fabuloso":


Bazar Pamplona entrega-nos o temido segundo álbum com uma nova e mais luminar proposta. Não conheço o CD de estreia do grupo, o na época elogiado À Espera das Nuvens Carregadas(2008). Conta-se que o tal trazia ecos do Los Hermanos, ou seja, boas poesia e melodia aditivadas pelo combustível roquenrrou. Menos denso e nostálgico, o quinteto formado por Estêvão Bertoni (vocais e guitarras), João Victor (guitarra), Rodrigo Caldas (bateria), Rafael Capanema (baixo e teclado) e Marcos Miranda (teclado e baixo), resolveu se distanciar daquela recorrente e nada desprezível comparação. Falando nisso e sem querer exatamente comparar, mas apenas sugerir uma referência, a banda traz agora uma levada mais próxima dos gaúchos do Bidê ou Balde. Ou seja, rock com graça e inteligência. Isso já pode ser sentido na música que abre e dá título ao álbum, e uma das mais legais, "Todo Futuro é Fabuloso". Com uma levada rocker e animada, a música traz boa mistura de guitarra e violões, corinhos grudentos e letra explicitamente psicodélica: "Imaginem se chover na velocidade da luz/Não há tempo pra correr/Pois tampem o céu, eu propus/ No escuro, mantenham tudo azul".

Paulistano assumidos, o quinteto faz som pra gente grande

O quinteto paulistano consegue fazer crônica urbana, com música e letra que trazem um delicioso mix de humor e melancolia. É o caso de "Greve", essa com harmonia meio country (reparem na guitarra inicial) e instrumental que serviria como trilha de comercial sobre dias felizes, com direito a assobios (não, não pensem em comerciais de margarina. Não é bem por aí. Pensem em situações mais felinnianas): "Não há emprego, todo dia é domingo/Não há o que se preocupar diz a mulher/Avisa aos filhos: ele não vai voltar, porque ele cai de bar em bar", canta Estêvão Bertoni em tom ensolarado, e timbre que lembra o de Hélio Fladers, do Vanguart, para terminar a história em tom lúgubre: "Quanta tristeza, ele morreu no domingo/(...)E nunca mais ele se pôs a mesa do jantar. A dívida fica, os filhos vão pagar". A composição é uma mostra de que Bazar Pamplona sabe se utilizar com precisão e leveza dessa alma urbana e conturbada tão evidente nos paulistas reféns da metrópole. Carregam aquela destreza de encarar o dia a dia, temores e questionamentos que só os que são habilitados pela crueza do caos cosmopolita conseguem. Os discursos fáceis e espirituosos estão na ponta da língua, inclusive na horinha da declaração de amor, amparada musicalmente por uma elegância jazzy, com participação especial da talentosa Lulina: "É tão cafona o que eu sinto por você, meu bem/Tão cafona quanto o meu chapéu, oh, céus/Não se lembra? Foi presente seu". É assim na ótima "E tão Cafona o que eu sinto por você".

Ouça "Greve":


Exemplos dessa urbanidade são sinceros, quase cinematográficos e assumidos em todo o transcorrer do álbum. Em "O Gringo", com um belo arranjo de moldura circense, o vocalista brinca de ser estrangeiro, sem perder jamais o espírito mordaz são paulino: "Eu era o mais paulista, parado no sinal/ Eu percorri as listas deitadas sob o sol de manhã/Não abrem os cinemas onde as balas não têm legendas. E não sou daqui". Você já percebeu que essa minha resenha está cheia de aspas. É porque a poesia, as palavras em Bazar Pamplona, são relevantes. São transportes para a criação do clima exato entre ouvinte e mensagem. Trazem empatia e conexão com essas coisas das metrópoles. E mesmo quem não vive nelas, mas as reconhece pela televisão jornais e tudo o mais que as trazem mais próximo da gente, acaba sendo alcançado. Porque os elementos que cantam têm aquela sintonia, o cadinho que está no subconsciente de quem tem a essência urbanóide. É isso que transparece a letra de "Quero ser Grande", feita da matéria de quem tem muitas referências culturais: "Ri de desenho animado, diverte quem está ao seu lado/Pretende ser astronauta e logo trata de inventar o que falta/ Se possível quero ser grande, bem maior que uma roda gigante".

Música do grupo e cheia de auto referências e espirituosidade
É louvável no álbum o despojo e a tão citada, aqui, leveza. A ponto inclusive do grupo tirar onda do próprio umbigo. Em "Quem eles Pensam que São", sacaneiam com suas evidentes características de fazer por exemplo, "piadinhas no meio da música". "Nós somos o Bazar Pamplona", assumem no final. Essa auto-referência pode ser vista lá pela metade do trabalho, em "Canção do Meio", na qual a banda pede para que as pessoas não desliguem o play: "Você está no meio, ainda demora para acabar/Te faço uma promessa, de cantar um verso que te alegre/É só você não pular essa canção", um irresistível e engraçado apelo feito bem no meio do disco. No final, em "Faixa Bônus", lúdica até o topo, a galera fala de novo diretamente ao ouvinte: "Gravei uma faixa bônus pra você, desses que tocam no final/Afinal, vou ficar por aqui". Assim mesmo, dando um ponto final a um trabalho feliz, criativo e que deixa todos nós atentos, com aquele riso no canto da boca. Todo Futuro é Fabuloso é uma bola dentro desses paulistanos com muito a dizer, discursivos sem ser prolixos e donos de uma levada rock madura. O futuro do Bazar Pamplona tende a ser fabuloso. O sinal foi dado. Agora é seguir em frente e esperar pelas próximas faixas bônus e não pular jamais essa parte da história.

Cotação: 3

Se ligue no futuro fabuloso:

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