sábado, 30 de janeiro de 2010

Homens da floresta

Todas as vezes que ponho para escutar o som, me vem à cabeça imagens de uma era profunda, barroca, não feita de monstros e seres mágicos, mas de homens e mulheres brutalizados, corroídos pela ignorância e falta de perspectivas. Assim como num filme repetido em pleno século 21, nessa brincadeira sem graça de Deus, nos grotões de nosso sertão mais enraizado na penúria e castigado pela inclemência da natureza. Corações medievais submissos a poderes espirituais, que cria lendas, e aos mistérios de um mundo casto da tecnologia e da ciência que tudo clareia. O som de que falo é de uma banda cada vez mais ensimesmada em sua busca por um som radical, que desafia modismos e se aventura em sonoridades datadas. Bem vindo ao passado traduzido no folk impiedoso dos norte-americanos do Midlake e seu The Courage of Others (Bella Union Records, 2010).

Lembro bem de quando ouvi The Trials of Van Occupanther, o trabalho de 2006 do Midlake, forjado por seus cinco integrantes Tim Smith (vocal, teclado e guitarra), Paul Alexander (baixo e teclado), Eric Nichelson(teclado e guitarra), Eric Pulido (guitarra e backing vocal) e Mckenzie Smith(bateria). Toda aquela trama delicada tecida em cima de canções doces e inspiradas chamou minha atenção e a de muitos outros fãs de uma música mais orgânica, que valoriza principalmente a melodia. Herdeiros de Van Morrison, Nick Drake, Tim Buckley e afins, esses new hippies deram um passo a frente do mediano Bamnan and Silvercork(2004). A estréia abusou de um teclado modernoso que prejudicava a sinuosidade das composições. O trabalho seguinte, mais sereno, trouxe lindas músicas e o equilíbrio de arranjos que ao contrário do anterior faziam com que o alicerce melódico se revelasse em sua plenitude.

The Courage of Others é uma guinada na curta carreira da banda. Não se pode dizer que é um avanço. É uma mudança centrada na construção de uma música refinada, atmosférica, mergulhada intensamente numa sonoridade que remete aos tempos medievos. Algo que podia ser antevisto, de leve, no álbum anterior em músicas como a vigorosa “In this Camp”. Assim, flautas, o aumento da presença do coro, os violões dedilhados, o baixo e bateria coesos e comportados, e, acima de tudo, as melodias injetadas com boas doses de um sentimento chamado melancolia, passam aquela impressão. Um disco invernal, no qual as melodias convidam o bucolismo e a espirituosidade para uma contradança. E o ouvinte torna-se invariavelmente, pelo menos no meu caso, um parceiro dedicado nessa coreografia.

"The Acts of Man", primeira música do álbum, dá a senha do que vem a seguir. O folk com sotaque barroco, clássico até a medula, faz lembrar trovadores medievais. “Se tudo o que cresce começa a se desmanchar, começa a enfraquecer, deixe-me entrar, deixe-me entrar”, canta o afinado vocalista Tim Smith, prenunciando a ode à melancolia. Tudo soa meio diáfano, como um fundo musical para o encontro de centauros e fadas no noturno da floresta. Repare no solo de flauta e tente não se reportar aquela longínqua era. Nem o contraponto da guitarra levemente distorcida com o violão acústico na linda "Winter Days" consegue afastar a sensação de que estamos diante de um som com linhas melódicas fincadas no passado. Cheira a terra, dragões e espadas, como na gótica "In the Ground", talvez a mais emblematicamente hard folk de todas.

A opção dos caras do Midlake pelo folk classudo perpassa encantatoriamente todo este The Courage of Others. É um trabalho coeso, quase conceitual, com suas canções lentas e belas que parecem ter saído de um baú com especiarias de aspecto idêntico mas com sabores próprios e diferenciados. É preciso ouvir o disco com paciência, sentir a sua tessitura, a leveza dos arranjos e o instrumental competente para descobrir a riqueza escondida nas finas melodias. Não desista fácil. Tente concentrar-se na seqüência sublime de "Bring Down", a mais tocante do CD, "The Horn" e "The Courage of Others". Ouça pelo menos três vezes com um fone de ouvido. Feche os olhos e viaje na beleza dessa música passional e inspirada como o inverno sereno que nos faz meditar casmurros. Um grande disco no início de um ano que, musicalmente, parece promissor. Que os deuses corroborem esse sentimento.

Cotação: 5

Vá de folk:

http://uploaded.to/file/snk6k9

Escute "Winter Days":










Para ouvir Bamnan and Silvercork:

http://www.mediafire.com/?mzdndm2ejt4








Para ouvir The Trials of Van Occupanther:

http://www.megaupload.com/?d=XFFJCZ07


Ouça “The Courage of Others” em vídeo independente que usou trecho de um filme japonês sobre samurais:

4 comentários:

Krebão disse...

Rubão, quando tiver tempo dê uma olhada:
http://adegarock.blogspot.com/2010/01/origens-dos-nomes-de-bandas-e-artistas.html

DR.TÍMPANO - BSB/DF disse...

Beleza, Krebão. Vou lá agora mesmo. Abração, primo.

Bruno disse...

Ótima resenha. Embora não tenha ainda apreciado o disco em sua plenitude, e goste mais do Trials Of Van Occupanter, o novo disco parece muito bom também.

DR.TÍMPANO - BSB/DF disse...

Oi, Bruno,

O Trials é realmente um tanto mais palatável. O último é um tanto mais ambicioso, mas igualmente potente. Vale a pena curtir com calma para perceber todas as filigranas...

Obrigado pelo acesso,